Cultura do desperdício

E se, em vez de procurarmos aumentar a produção agrícola para alimentarmos o planeta, começássemos por deixar de desperdiçar os alimentos? Um estudo, publicado na revista científica PLOS One de Novembro, revela que, a cada ano, 40% dos alimentos disponíveis nos Estados Unidos são deitados para o lixo. Este desperdício implica igualmente o desperdício de um quarto da água doce consumida no país (utilizada na produção destes alimentos) e o equivalente em energia de 300 milhões de barris de petróleo por ano. Estes dados confirmam as precedentes estimações do desperdício alimentar nos países desenvolvidos, avaliado de 30 a 40%.


Este fenómeno toca igualmente os países em vias de desenvolvimento. Não existe um consenso, mas estima-se que as perdas sejam entre 10 e 60% das colheitas, em função dos produtos agrícolas. “O pensamento dominante afirma que, para respondermos ao aumento da procura alimentar nas próximas décadas, é necessário aumentar-se a produção”, afirma Jan Lundqvist, director do comité científico do Stockholm International Water Institute (SIWI). “Seria mais racional começar-se por procurar reduzir o desperdício. Este corresponde a um esbanjamento de recursos que se estão a tornar cada vez mais escassos, como a água”.

Para chegarem a estas conclusões, fisiologistas do Instituto nacional de saúde americano calcularam a diferença entre as quantidades de alimentos disponíveis no país e o consumo dos habitantes, estimado a partir da evolução do seu peso médio. Resultado: em 1970, cada americano absorvia em média 2 100 calorias por dia, enquanto os alimentos disponíveis por pessoa equivaliam a 3 000 calorias. No intervalo, o peso médio aumentou em 10 kg. “A diferença entre os dois números corresponde às quantidades desperdiçadas”, explica Kevin Hall, responsável pelo estudo. Estas chegavam a pouco menos de 30% da alimentação disponível em 1970, contra 40% actualmente.

Nos países ricos, o essencial das perdas ocorre no início da cadeia. A distribuição rejeita uma parte dos produtos em função de critérios estéticos, e aplica largas margens de segurança sobre os prazos de validade. No entanto, ocorrem igualmente perdas consideráveis na restauração colectiva e… nas cozinhas dos particulares.

Um estudo detalhado do conteúdo dos caixotes do lixo na Grande Bretanha, publicado em Novembro deste ano, estima que 25% dos alimentos comprados são deitados fora. Segundo o WRAP (Waste and resources action programme), o organismo público responsável pelo estudo, o essencial do desperdício é evitável: ou os alimentos não foram consumidos a tempo ou foram produzidos em demasiada quantidade. Estes representam o equivalente de 13 biliões de euros por ano (ou seja 530 euros por lar e por ano) e 2,4% das emissões de gazes com efeito de estufa do país.

Nos países em vias de desenvolvimento, não falamos de desperdício, mas sim de perdas, e as razões são bastante diferentes. “Estas devem-se a más condições de colheita, de transporte, de armazenamento e a uma formação insuficiente sobre os métodos de conservação dos alimentos”, explica Stepanka Gallatova, da Organização das Nações unidas para a alimentação e a agricultura (FAO). Estas amplificam-se com a urbanização: quanto mais as zonas de consumo se distanciam das zonas de produção, mais a rede de aprovisionamento se complexifica e os riscos de perdas aumentam.

Embora o tema seja cada vez mais divulgado por investigadores e instituições especializadas, continua a não fazer parte da agenda das políticas prioritárias da maior parte dos Estados. Nos países pobres, a redução das perdas seria, no entanto, menos dispendiosa do que a aumentação da produtividade agrícola, segundo Stepanka Gallatova. Esta estima que, no entanto, “desde a crise alimentar (de 2008), o tema começa a suscitar algum interesse entre os países em vias de desenvolvimento”.

Mas o problema é bastante complexo. “É necessário desconfiarmos das soluções milagrosas”, afirma Michel Griffon, agrónomo e director geral adjunto da Agência nacional de investigação em França (ANR). “Inúmeros actores estão implicados na cadeia alimentar. A redução das perdas implica a elaboração e aplicação de estratégias bastante sofisticadas”. Por outro lado, se tantos intervenientes se interessam sobre os meios de aumento da produção e tão poucos sobre a redução do desperdício, é também porque este último representa um mercado claramente menos atractivo.

A Grande Bretanha está a desenvolver uma política de sensibilização ao desperdício, que insiste na quantidade de recursos gastos e de resíduos produzidos: água, energias, adubos, pesticidas, emissões de gazes com efeito de estufa... “Poucas pessoas se apercebem do quanto desperdiçam e poucas sabem que a produção alimentar consome tantos recursos, afirma Jan Lundqvist, por isso, é importante colocar-se esta relação em evidência, que acaba por permitir que as pessoas reduzam as suas despesas”. “O desperdício está relacionado à importância que as pessoas atribuem à sua alimentação, estima Michel Griffon, actualmente, uma família consagra-lhe 15% do seu orçamento, contra 40% há 60 anos atrás. Por isso, o aumento dos preços poderia mecanicamente reduzir o desperdício”. Segundo o agrónomo, os Estados deveriam começar imediatamente a preocupar-se com este problema, lançando “políticas semelhantes às que são desenvolvidas a favor das economias de energia”.

No mar como em terra, alimentos que poderiam ser consumidos são deitados borda fora. Estima-se que sete milhões de toneladas de peixe são rejeitados a cada ano no oceano, isto é, 10% das capturas totais. Os pescadores voltam a atirar à água os peixes menos apreciados que são difíceis de comercializar. Para além disso, estão também limitados pela regulamentação, não tendo direito de trazer para terra peixes demasiado pequenos ou de espécies cuja quota já foi esgotada. Em Novembro, a interdição do high grading (rejeições de peixes por razões comerciais) foi adoptada pela comunidade europeia, mas esta medida é difícil de se controlar.

Fontes:
- “Pourquoi le monde gaspille autant de nourriture”, Le Monde, 11 de Dezembro, 2009;
- “Des millions de tonnes de poissons rejetés à l'eau”, Le Monde, 12 de Dezembro, 2009.

Foto: Consumption Society (
Ben Heine/Flickr).

Salvar-se o planeta ou preocuparmo-nos com os homens?

Há 3 semanas, uma Cimeira Mundial reuniu-se em Roma em torno de um grave problema: o facto de que mais de 1 bilião de habitantes do nosso planeta sofrem de fome, um número recorde atingido este ano. Nenhum chefe de Estado compareceu a este evento e as medidas tomadas foram bastante ligeiras. Por outro lado, em Copenhaga, todos se apressam para figurar na foto de família e para estabelecer medidas precisas.


Como explicar o facto de que o mundo parece mais preocupado com a sua salvação a longo prazo e tão pouco interessado pela salvação dos homens hoje?

Não se trata de minimizarmos nem de negarmos as alterações climáticas. E é óbvio que a falta de uma solução a longo prazo não tornará melhor a sorte dos homens que sofrem actualmente. A questão é que não podemos fechar os olhos aos impasses dos dirigentes mundiais face a problemas tão gritantes e actuais. Basta olharmos para os ”Objectivos do Milénio”, que visam eliminar a pobreza da superfície da Terra em 2015, um compromisso solene da comunidade internacional. O site das Nações Unidas deixa bem claro o atraso colossal para o cumprimento destes objectivos: “mesmo que a ajuda ao desenvolvimento tenha atingido um nível recorde em 2008, ainda faltam 35 biliões de dólares por ano de contribuições dos doadores, em relação às promessas realizadas em 2005 quanto ao fluxo anual de ajuda do G8, e 20 biliões por ano de ajuda à África, segundo estimações das Nações Unidas”.

O G8 de Gleneagles foi realizado em 2005. Três anos mais tarde e a foto de família tirada, os compromissos não foram cumprido... Isto significa atraso nos programas que visam eliminar a enorme mortalidade das mulheres durante o parto por falta de infra-estruturas sanitárias, lutar contra as doenças comuns no Sul ou melhorar a segurança alimentar dos países mais frágeis, três dos objectivos do Milénio.

Somos nós obrigados a escolher? O aquecimento global ou a fome no mundo? A dívida dos países em vias de desenvolvimento ou a saúde pública? A máquina mediática funciona de tal maneira que saltamos de grande título em grande título, sem nos preocuparmos com o acompanhamento das decisões precedentes. A realidade é que a governação mundial está algo apagada e parece ter sido substituída por encontros hiper-mediatizados aos quais qualquer político com falta de visibilidade quer comparecer à força.

Uma interessante reflexão de Pierre Haski, a aprofundar no site Rue89.

Fontes:
- “
Sauver la planète ou s'occuper des hommes ? Ou les deux ?”, Rue89, 7 de Dezembro, 2009.

Photo : “Sad Earth”, por ocasião de uma acaçãod e sensibilização ao aquecimento global em Chigago, em Setembro de 2007 (JohnLeGear/Flickr).

Há algo de podre no eco-reino da Dinamarca

Deixando o tema Copenhaga de lado mas continuando na Dinamarca, um país que se orgulha de ser um dos mais “verdes” do mundo.

O Los Angeles Times revela-nos algumas verdades inconvenientes sobre a Dinamarca: apesar da tão proclamada adesão à energia eólica, do sucesso das bicicletas como meio de transporte, dos altos níveis de reciclagem e das suas políticas progressistas, a Dinamarca é o país que mais lixo gera por cabeça e a maior parte da sua energia ainda provem do carvão.


O jornal californiano baseia-se num relatório da Comissão Europeia para denunciar que, em 2007 (últimos dados disponíveis), “os dinamarqueses, com 801 quilos de lixo por habitante e por ano, eram os maiores produtores de todos os membros da EU”. Mesmo os americanos, criticados mundialmente pelo seu modo de vida hiper-consumidor e hiper-poluente, não chegam a tanto: 768 quilos. A título informativo, e como já aqui foi referido, os portugueses, produzem cerca de 300 quilos por habitante e por ano.

Na verdade, os dinamarqueses são bem mais amigos do ambiente quando se trata do tratamento de todo este lixo. Os níveis de reciclagem são bastante elevados e apenas 5% dos resíduos acaba em aterros. O problema é que ainda não foram realizadas qualquer iniciativa ou campanha para se reduzir na fonte o volume de resíduos produzidos.

Fontes:
- “Les Danois, rois des pollueurs”, Courrier International, 7 de Dezembro, 2009;
- “Denmark's green credentials obscure some unpleasant facts”, Los Angeles Times, 6 de Dezembro, 2009.

Foto : Bikes! (TamTurse/Flickr).

Choque em cadeia



Via Victor S. Gomez.

Podíamos ter feito, mas não fizemos

Ao desembarcarem no aeroporto de Copenhaga, milhares de diplomatas, governantes, jornalistas e activistas de todo mundo deram de cara com uma excelente campanha da Greenpeace: fotos de vários líderes mundiais, envelhecidos, que lamentam não ter conseguido chegar a um compromisso bom o suficiente para salvar o planeta em 2009. No painel lê-se: “Desculpe. Nós poderíamos ter parado as catastróficas alterações climáticas... Mas não o fizemos.”, seguido de um pedido: "Aja agora: salve o futuro”.

Barack Obama (EUA)


Angela Merkel (Alemanha)


Nicolas Sarkozy (França)


Gordon Brown (Inglaterra)


Lula da Silva (Brasil)


Jose Luis Rodriguez Zapatero (Espanha)

Cop15, o que está em jogo

Não é novidade para ninguém de que teve hoje início a tão esperada Cimeira de Copenhaga. Um evento de tal forma mediatizado, que aquilo que está verdadeiramente em jogo deixa de ser claro. Rue89 coloca os pontos nos is.

1. O que é que se debate em Copenhaga?

A Cimeira de Copenhaga, ou Cop15, é o décimo quinto evento do género, após a Cimeira da Terra no Rio de Janeiro em 1992, que inaugurou a primeira Convenção Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas.

A tomada de consciência da influência das actividades humanas nas alterações climáticas foi marcada pela criação do grupo internacional de peritos sobre a evolução do clima, o famoso IPCC, em finais de 80. É nos relatórios do IPCC, cujo último, publicado em 2007, declara que a Terra não poderá suportar uma subida da temperatura mundial superior a 2° C até ao final do século, que se baseiam as actuais negociações.

Os 192 países que se reúnem em Copenhaga devem negociar uma nova Convenção Quadro, pois os objectivos fixados em Quioto não vão para lá de 2012.

Se muitas vezes ouvimos citar o protocolo de Quioto como um contra-exemplo, é porque a não ratificação do Senado americano levou a que quase todos os outros compromissos caducassem, pois, perante esta posição de um dos principais signatários, os restantes sentiram-se livres para não os respeitarem. Outra lacuna, esta no próprio texto: os países emergentes como a China, a Índia ou o Brasil não se comprometeram a reduzir as suas emissões de gazes com efeito de estufa. Doze anos mais tarde, estes, cujos níveis de emissões explodiram em flecha, estão no centro das discussões de Copenhaga.

2. Porque é que os países ricos têm uma responsabilidade específica?

O problema com a atmosfera é que esta é apenas uma e que, enquanto uma família americana anda em 4x4 e possui 5 televisões, é o camponês do Burkina Faso que está em risco… O clima é aquilo que os economistas designam de “bem publico mundial”, pelo qual todos somos co-responsáveis. No entanto, como actualmente são os mais pobres que estão a sofrer as maiores consequências, a responsabilidade não pode ser a mesma para todos.

Para além disso, os gazes com efeito de estufa têm a particularidade de permanecer durante anos na atmosfera, por isso mesmo, são os países desenvolvidos que estão na origem de 77% das emissões acumuladas. Estes têm, assim, uma “responsabilidade histórica” para com os países em vias de desenvolvimento e não podem proclamar um discurso moralista obrigando-os a passar directamente a um crescimento verde, mais custoso, ou a travar o seu crescimento. Mas se os países em vias de desenvolvimento continuarem a desenvolver-se ao ritmo actual, as suas emissões de gazes com efeito de serra poderiam aumentar em 84% em 15 anos, segundo a Agência internacional da energia. Insustentável.

Para "dar um lugar aos recém-chegados" na atmosfera, será então indispensável que os países desenvolvidos apertem o cinto mais do que os restantes.

3. Como se vão desenrolar as negociações?

Durante estes 12 dias de negociações, arriscamo-nos a assistir a jogadas impressionantes, e o bluff será uma constante. No centro do jogo, estão os 3 maiores emissores, a China, os Estados Unidos e a Europa. Basta que uma única destas potências se descarte de um eventual acordo em Copenhaga, para que este fique sem validade real.

4. Como permitir que os mais pobres de adaptem?

Prova de boa vontade, as grandes potências emergentes já anunciaram espontaneamente compromissos voluntários de reduções de emissões:
- O Brasil propõe menos 36 a 39% relativamente às suas previsões para 2020;
- A Índia propõe para 2020 menos 20 a 25% relativamente aos níveis de 2005;
- A China aponta uma redução de 40 a 45% para o mesmo período.

Mas, para que tal seja possível, estes países exigem uma ajuda financeira e tecnológica que poderá passar por:
- um fundo de adaptação como foi previsto em Quioto: uma taxa de 2% sobre os projectos de redução de emissões nos países em vias de desenvolvimento;
- uma transferência de tecnologia a partir, por exemplo, de uma ajuda à implantação de energias renováveis;
- uma taxa carbono mundial. Se a Europa não conseguiu instaurá-la à sua escala, interrogamo-nos sobre a sua praticabilidade a nível mundial…;
- um mercado de direitos a poluir como já existe ao nível europeu. Outros estão em vias de criação nos EUA, na Austrália e no México. A ideia é que cada país, segundo as quotas de emissões que lhe são atribuídas pela autoridade reguladora, recebe direitos a poluir: os maiores poluidores poderão assim comprar direitos aos mais virtuosos. O problema é que o preço da tonelada equivalente de CO2 é fixado pelo mercado e poderá ser demasiado baixo para ser incitativo, como aconteceu na Europa após a crise económica.

5. A caminho de um falhanço?

Alguns chegam mesmo a desejar o falhanço das negociações, como James Hansen, especialista do clima da NASA, que afirma que “sobre este tipo de problemas, não é possível realizarem-se compromissos”. Isto é, à falta de mecanismos coercivos, um acordo político sobre níveis de emissões a longo prazo não está à altura do problema.

Não há dúvida de que se alcançará um acordo “politicamente coercivo”, mas como lembra a rede Action Climat, “juridicamente, este termo não existe”. Para o RAC-F, a melhor solução seria um tratado juridicamente coercivo, acompanhado de sanções financeiras em caso de incumprimento. Um pouco menos radical, Pierre Radanne, antigo presidente da ADEME, defende que “um acordo a qualquer preço em Copenhaga, não serve o interesse geral: estaríamos a sacrificar o futuro do planeta por um proveito político efémero de um sucesso diplomático enganoso”.

Prudentes, são vários os observadores que estimam que Copenhaga poderá tornar-se apenas numa primeira etapa, cujas negociações culminarão possivelmente no México em 2010.

Fontes:
- "
Cinq clés pour comprendre les enjeux de Copenhague", Rue89, 7 de Dezembro, 2009.

Foto:
Greenpeace.org.br.

O número do mês: 300 kg

Cada português produz, em média, 300 kg de lixo por ano.


Mesmo a propósito, aqui fica uma interessante reportagem, a ver no Biosfera* (atenção, o vídeo demora una bons minutos a aparecer).

Esta emissão aborda também a questão do uso e do abuso dos sacos de plástico (dos quais 90% acaba em aterros ou em centros de inceneração) e da sua gratuidade nos supermercados, dois temas já aqui debatidos.

Por último, aqui fica um site bastante prático para quem está interessado em prevenir e reduzir a sua produção de lixo: http://www.eunaofacolixo.com/.

Foto: mixed green salad #4... (bruce grant/Flickr).

* O meu obrigado à Joana, que me fez descobrir este excelente programa, transmitido semanalmente na 2 e que pode ser visto na internet.