
Este fenómeno toca igualmente os países em vias de desenvolvimento. Não existe um consenso, mas estima-se que as perdas sejam entre 10 e 60% das colheitas, em função dos produtos agrícolas. “O pensamento dominante afirma que, para respondermos ao aumento da procura alimentar nas próximas décadas, é necessário aumentar-se a produção”, afirma Jan Lundqvist, director do comité científico do Stockholm International Water Institute (SIWI). “Seria mais racional começar-se por procurar reduzir o desperdício. Este corresponde a um esbanjamento de recursos que se estão a tornar cada vez mais escassos, como a água”.
Para chegarem a estas conclusões, fisiologistas do Instituto nacional de saúde americano calcularam a diferença entre as quantidades de alimentos disponíveis no país e o consumo dos habitantes, estimado a partir da evolução do seu peso médio. Resultado: em 1970, cada americano absorvia em média 2 100 calorias por dia, enquanto os alimentos disponíveis por pessoa equivaliam a 3 000 calorias. No intervalo, o peso médio aumentou em 10 kg. “A diferença entre os dois números corresponde às quantidades desperdiçadas”, explica Kevin Hall, responsável pelo estudo. Estas chegavam a pouco menos de 30% da alimentação disponível em 1970, contra 40% actualmente.
Nos países ricos, o essencial das perdas ocorre no início da cadeia. A distribuição rejeita uma parte dos produtos em função de critérios estéticos, e aplica largas margens de segurança sobre os prazos de validade. No entanto, ocorrem igualmente perdas consideráveis na restauração colectiva e… nas cozinhas dos particulares.
Um estudo detalhado do conteúdo dos caixotes do lixo na Grande Bretanha, publicado em Novembro deste ano, estima que 25% dos alimentos comprados são deitados fora. Segundo o WRAP (Waste and resources action programme), o organismo público responsável pelo estudo, o essencial do desperdício é evitável: ou os alimentos não foram consumidos a tempo ou foram produzidos em demasiada quantidade. Estes representam o equivalente de 13 biliões de euros por ano (ou seja 530 euros por lar e por ano) e 2,4% das emissões de gazes com efeito de estufa do país.
Nos países em vias de desenvolvimento, não falamos de desperdício, mas sim de perdas, e as razões são bastante diferentes. “Estas devem-se a más condições de colheita, de transporte, de armazenamento e a uma formação insuficiente sobre os métodos de conservação dos alimentos”, explica Stepanka Gallatova, da Organização das Nações unidas para a alimentação e a agricultura (FAO). Estas amplificam-se com a urbanização: quanto mais as zonas de consumo se distanciam das zonas de produção, mais a rede de aprovisionamento se complexifica e os riscos de perdas aumentam.
Embora o tema seja cada vez mais divulgado por investigadores e instituições especializadas, continua a não fazer parte da agenda das políticas prioritárias da maior parte dos Estados. Nos países pobres, a redução das perdas seria, no entanto, menos dispendiosa do que a aumentação da produtividade agrícola, segundo Stepanka Gallatova. Esta estima que, no entanto, “desde a crise alimentar (de 2008), o tema começa a suscitar algum interesse entre os países em vias de desenvolvimento”.
Mas o problema é bastante complexo. “É necessário desconfiarmos das soluções milagrosas”, afirma Michel Griffon, agrónomo e director geral adjunto da Agência nacional de investigação em França (ANR). “Inúmeros actores estão implicados na cadeia alimentar. A redução das perdas implica a elaboração e aplicação de estratégias bastante sofisticadas”. Por outro lado, se tantos intervenientes se interessam sobre os meios de aumento da produção e tão poucos sobre a redução do desperdício, é também porque este último representa um mercado claramente menos atractivo.
A Grande Bretanha está a desenvolver uma política de sensibilização ao desperdício, que insiste na quantidade de recursos gastos e de resíduos produzidos: água, energias, adubos, pesticidas, emissões de gazes com efeito de estufa... “Poucas pessoas se apercebem do quanto desperdiçam e poucas sabem que a produção alimentar consome tantos recursos, afirma Jan Lundqvist, por isso, é importante colocar-se esta relação em evidência, que acaba por permitir que as pessoas reduzam as suas despesas”. “O desperdício está relacionado à importância que as pessoas atribuem à sua alimentação, estima Michel Griffon, actualmente, uma família consagra-lhe 15% do seu orçamento, contra 40% há 60 anos atrás. Por isso, o aumento dos preços poderia mecanicamente reduzir o desperdício”. Segundo o agrónomo, os Estados deveriam começar imediatamente a preocupar-se com este problema, lançando “políticas semelhantes às que são desenvolvidas a favor das economias de energia”.
No mar como em terra, alimentos que poderiam ser consumidos são deitados borda fora. Estima-se que sete milhões de toneladas de peixe são rejeitados a cada ano no oceano, isto é, 10% das capturas totais. Os pescadores voltam a atirar à água os peixes menos apreciados que são difíceis de comercializar. Para além disso, estão também limitados pela regulamentação, não tendo direito de trazer para terra peixes demasiado pequenos ou de espécies cuja quota já foi esgotada. Em Novembro, a interdição do high grading (rejeições de peixes por razões comerciais) foi adoptada pela comunidade europeia, mas esta medida é difícil de se controlar.
- “Pourquoi le monde gaspille autant de nourriture”, Le Monde, 11 de Dezembro, 2009;
- “Des millions de tonnes de poissons rejetés à l'eau”, Le Monde, 12 de Dezembro, 2009.
Foto: Consumption Society (Ben Heine/Flickr).








